RESUMO:
- CNN projetou que 100 mil igrejas dos Estados Unidos podem fechar ou mudar de uso na próxima década
- O número vem de uma análise do Center for the New University e embala uma série documental da PBS sobre o cristianismo no país
- Dados da Lifeway Research: em 2024, cerca de 4 mil igrejas protestantes fecharam e 3,8 mil abriram, um saldo negativo de apenas 200
- Levantamento do Hartford Institute ouviu 7.453 congregações e registrou a primeira alta na frequência aos cultos em 25 anos
- Pesquisadores alertam para o outro lado: igrejas grandes crescem, enquanto congregações pequenas seguem encolhendo
Um número forte rodou o mundo nos últimos dias: cerca de 100 mil igrejas dos Estados Unidos podem fechar as portas ou ser reaproveitadas na próxima década. A projeção apareceu em uma reportagem especial da CNN, publicada no início de outubro, que descreveu o movimento como um “tsunami” de fechamentos capaz de redesenhar o cristianismo americano. Mas institutos que acompanham as congregações do país há décadas afirmam que os dados disponíveis não sustentam um colapso nessa escala, e mostram um cenário de fechamento de igrejas bem mais lento, com sinais até de recuperação na frequência aos cultos.
DE ONDE SAIU A PROJEÇÃO DE 100 MIL IGREJAS?
O número de 100 mil não é uma contagem da CNN nem uma lista de igrejas com fechamento marcado. Ele vem de uma análise do Center for the New University, citada pela emissora, e ganhou força com a estreia da série documental “Christianity at a Crossroads” (em português, “Cristianismo em uma encruzilhada”), produção da Journey Films em quatro episódios exibida pela rede pública PBS, que examina os desafios das igrejas americanas.
Para ilustrar o drama, a CNN contou a história da Belding United Methodist Church, uma igreja metodista de Michigan com 120 anos de existência. Em 2024, a pastora anunciou o fechamento à congregação reunida: cerca de doze membros idosos, espalhados por um santuário construído para mil pessoas. Histórias assim se repetem pelo país, e parte dos templos fechados tem sido reaproveitada para outros fins, como moradia popular, o que amplia o impacto nas comunidades, já que muitas igrejas abrigam bancos de alimentos, reuniões de bairro e até locais de votação.
A projeção, porém, foi questionada por especialistas e pela imprensa cristã. A revista RELEVANT, uma das principais publicações cristãs dos Estados Unidos, publicou uma análise afirmando que os melhores números disponíveis pintam um quadro bem mais complicado do que o do colapso anunciado, e repercutiu o debate nas redes sociais:
O QUE OS DADOS DA LIFEWAY MOSTRAM SOBRE ABERTURAS E FECHAMENTOS?
A Lifeway Research, instituto de pesquisas ligado ao meio evangélico americano, analisou dados fornecidos por 35 denominações e grupos religiosos, que representam 58% das igrejas protestantes do país, estimadas em cerca de 293 mil congregações. O resultado de 2024: aproximadamente 4 mil igrejas fecharam e 3,8 mil novas abriram, um saldo negativo de apenas 200 igrejas no ano.
O retrato fica ainda mais claro na comparação com os anos anteriores. Em 2019, a diferença era de 1,5 mil: foram 4,5 mil fechamentos contra 3 mil aberturas. Em 2014, o sinal era inverso, com mais igrejas abertas do que fechadas. Ou seja, o fechamento de igrejas continua maior que a abertura, mas o ritmo de perda diminuiu bastante, e as 4 mil baixas de 2024 representam cerca de 1,4% do total de congregações protestantes do país.
Para o diretor executivo da Lifeway, Scott McConnell, as igrejas mostram “a remarkable ability to remain open” (em tradução livre: “uma capacidade notável de permanecer abertas”), mesmo com menos fiéis em média. Na maior denominação protestante do país, a Convenção Batista do Sul, o saldo de 2024 também foi de queda pequena: 183 congregações a menos, em um universo de 49,3 mil igrejas.
A FREQUÊNCIA AOS CULTOS VOLTOU A SUBIR?
Se o número de templos cai devagar, o movimento dentro deles deu um sinal que os pesquisadores não viam há uma geração. O Hartford Institute for Religion Research entrevistou 7.453 congregações de 79 denominações entre setembro e dezembro de 2025 e constatou que a frequência presencial mediana nos cultos semanais subiu para 70 pessoas, acima das 65 registradas antes da pandemia. É a primeira alta do tipo em 25 anos.
“That hasn’t happened in my whole career as a researcher”, disse o pesquisador Scott Thumma, do Hartford Institute, à rádio pública NPR. Em tradução livre: “Isso não aconteceu em toda a minha carreira como pesquisador”.
Os próprios pesquisadores pedem cautela com a comemoração. Quase metade das congregações ouvidas perdeu fiéis no período, as igrejas históricas tradicionais continuaram encolhendo e a alta se concentra nas congregações maiores, enquanto as pequenas lutam para sobreviver. A conclusão do estudo é que o movimento representa mais uma reorganização do público entre as igrejas do que um crescimento geral da participação religiosa no país.
ENTÃO A IGREJA AMERICANA ESTÁ MORRENDO OU SE REORGANIZANDO?
Pelos dados, a resposta mais honesta é a segunda opção, com ressalvas. O declínio existe, é real e atinge principalmente as congregações pequenas e as denominações históricas, mas acontece em um ritmo muito distante do “tsunami” de 100 mil fechamentos em dez anos. Ao mesmo tempo, novas igrejas continuam sendo plantadas, e comunidades de imigrantes seguem entre as mais ativas do país: em Massachusetts, por exemplo, igrejas brasileiras reúnem multidões de fiéis e ocupam espaço crescente na vida religiosa americana.
O debate deve continuar nas próximas semanas, embalado pela exibição da série da PBS. Para pastores e líderes, o consenso entre os pesquisadores é que números de impacto servem de alerta, mas não substituem o retrato fiel: a igreja dos Estados Unidos está menor do que já foi, mais concentrada em congregações grandes e em transformação, porém longe do desaparecimento que a projeção mais alarmista sugere.
CRÉDITOS
IMAGEM E VÍDEO: Interior de igreja nos Estados Unidos: Tim Evanson via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0 (recortada) | Publicação: Reprodução | Instagram @relevantmagazine
FONTE: Reportagem da CNN sobre o fechamento de igrejas nos Estados Unidos e publicação da RELEVANT Magazine no Instagram (@relevantmagazine); dados da Lifeway Research e do Hartford Institute for Religion Research
NOTA: Este conteúdo pode ter contado com o auxílio de inteligência artificial e passou por revisão humana antes da publicação. Para mais detalhes, consulte nossa política de uso de inteligência artificial.
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