RESUMO:
- Uma carta de bispos apoia Lula e rejeita a candidatura de Flávio Bolsonaro, publicada na quarta-feira, 22, com 59 assinaturas de bispos de todo o país, cerca de 11 por cento do episcopado.
- O documento afirma que uma das candidaturas ameaça a Doutrina Social da Igreja, a democracia e a soberania, e cita trabalho, armas, meio ambiente e tortura.
- Nesta sexta-feira, 23, o bispo de Frederico Westphalen, dom Antonio Carlos Rossi Keller, reagiu em nota pastoral: o púlpito não é palanque, o altar não é comitê.
Uma carta de bispos apoia Lula sem citar o nome do presidente e movimentou a Igreja Católica brasileira na semana do segundo turno. A carta, publicada na quarta-feira, 22 de outubro de 2026, reúne assinaturas de bispos de diversas dioceses e afirma que uma das candidaturas ameaça frontalmente pontos centrais da Doutrina Social da Igreja, a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum.
Segundo a ACI Digital, o documento critica a candidatura que sempre foi contra o fim da escala 6×1, que promete submissão do Brasil aos Estados Unidos, que promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu governo, e que não reconhece a crise climática. Sem nomear Flávio Bolsonaro, é a ele que os signatários se referem.
O QUE DIZ A CARTA DE BISPOS APOIA LULA SOBRE FLÁVIO BOLSONARO?
Do outro candidato, a carta afirma que, embora também esteja sujeito a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição. Os bispos escrevem que gostar ou não do atual governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos da Igreja.
O texto cita a exortação apostólica de Leão XIV, que critica os que pensam que seria melhor deixar os pobres na miséria e ensinar-lhes antes a trabalhar, e acusa o partido de um dos candidatos de sempre ter sido publicamente contrário aos programas sociais e de combate à pobreza. A carta também reprova homenagens da família Bolsonaro ao coronel Carlos Brilhante Ustra, agente da repressão durante a ditadura militar, e lembra que a Doutrina Social propõe o desarmamento.
Entre os signatários estão os arcebispos dom Paulo Mendes Peixoto, de Uberaba, dom Roque Paloschi, de Porto Velho, e dom Zanoni Demettino Castro, de Feira de Santana, além de dom Luiz Fernando Lisboa, de Cachoeiro de Itapemirim. Nenhum dos oito cardeais do Brasil assinou. Em abril, a CNBB informava 497 bispos no país, 324 em atividade: os 59 signatários são cerca de 11 por cento do total.
.jpg?width=1284)
POR QUE UM BISPO REAGIU DIZENDO QUE O PÚLPITO NÃO É PALANQUE?
Nesta sexta-feira, 23, o bispo de Frederico Westphalen, no Rio Grande do Sul, dom Antonio Carlos Rossi Keller, publicou a nota pastoral A Doutrina Social não se cita pela metade, em reação à carta. A frase que resume o texto é direta: o púlpito não é palanque, o altar não é comitê.
Para dom Antonio, um documento que permite ao leitor identificar com segurança um candidato e concluir por sua rejeição já não opera no terreno dos princípios, e sim no terreno das opções contingentes, onde a Igreja não tem competência para decidir pelo fiel. Ele afirma que a carta invoca a doutrina em trabalho, armas, meio ambiente e soberania, mas silencia sobre a vida humana inocente desde a concepção, sobre a família, sobre o direito dos pais à educação dos filhos e sobre a liberdade religiosa, pontos que a Igreja chama de não negociáveis.
O bispo também questiona a fundamentação das advertências: qualificar uma candidatura como ameaça à democracia é uma acusação grave que exige prova, e o ônus da prova pertence a quem acusa. E distingue os pesos dos documentos: a mensagem do Conselho Permanente da CNBB, divulgada na quarta-feira, 21, tem o peso da representatividade de uma colegialidade, enquanto a carta tem o peso de um grupo. Tratá-las como equivalentes, escreveu, é o primeiro erro.
A CARTA É UM PEDIDO DE VOTO OU UMA ORIENTAÇÃO PASTORAL?
Os próprios signatários divergem na descrição do documento. O bispo de Campos, dom Roberto Francisco Ferrería Paz, um dos que assinaram, disse à ACI Digital, por nota da diocese, que a carta tem caráter exclusivamente pastoral, sem qualquer pedido explícito de apoio nem declaração de voto a candidatos ou partidos. Ao menos dois signatários afirmaram à imprensa católica que o texto não é um pedido de voto.
O pano de fundo é a posição oficial da conferência: em documento sobre as eleições divulgado em 17 de junho, a CNBB afirmou que a Igreja no Brasil não apoiava nenhum partido nem candidato, e nesta semana o Conselho Permanente divulgou mensagem ao povo brasileiro sobre o segundo turno, na linha que o portal registrou na matéria sobre a CNBB que pede voto consciente no segundo turno.
A carta segue aberta a adesões até este sábado, 24, véspera da votação, e o debate que ela abriu não deve se encerrar com a apuração. De um lado, bispos que dizem não poder se manter neutros diante do que chamam de ameaça à democracia; do outro, um bispo que responde que a Igreja não tem partido, tem os pobres, tem os sacramentos, tem a verdade. No meio, o eleitor católico decide no domingo, 25, e a carta de bispos apoia Lula entra para a história desta campanha como o documento que dividiu o episcopado na semana decisiva.
A dimensão do episódio ajuda a entender a reação. Uma carta de bispos apoia Lula e ao mesmo tempo diz falar apenas a partir da Doutrina Social não é um gesto de rotina: é uma intervenção organizada de parte do episcopado na véspera de uma eleição presidencial, articulada, segundo a ACI Digital, pelo movimento Bispos do Diálogo pelo Reino, que até aqui se manifestava publicamente de forma anônima sobre temas políticos.
É também por isso que a nota de dom Antonio foi escrita em nome próprio, sem falar pela conferência nem por regionais da CNBB. O bispo de Frederico Westphalen teme o precedente: estabelecido que um grupo de bispos pode, dias antes do pleito, produzir um juízo prático de voto sob a aparência de reflexão doutrinal, o precedente servirá amanhã a outros grupos, com outras conclusões.
No plano prático, a carta de bispos apoia Lula e segue aberta a adesões até sábado, 24, o que significa que o número de signatários ainda pode crescer nas últimas horas antes da votação. Cada nova assinatura será lida pelos dois campos como reforço ou como alvo, e a contagem final entrará para o balanço que a Igreja fará desta eleição.
Para o fiel comum, que dom Antonio diz não distinguir documentos com a precisão dos canonistas, o efeito imediato é o da dúvida entre duas orientações episcopais diferentes em dois dias. É exatamente essa confusão que a nota pastoral chama de matéria grave, e que torna a semana em que a carta de bispos apoia Lula um marco na relação entre a Igreja Católica e as eleições brasileiras.
Quando as urnas fecharem no domingo, o episódio continuará rendendo: o episódio em que uma carta de bispos apoia Lula será estudado ao lado de outros momentos em que bispos brasileiros falaram, ou foram acusados de falar, como bloco político. O que dom Antonio pede, no fim, é que a Doutrina Social seja citada inteira, e não pela metade. E o episódio em que a carta de bispos apoia Lula fica como o registro mais nítido dessa tensão.
Há um dado de proporção que os dois lados usam a seu favor. Se uma carta de bispos apoia Lula com 59 nomes em um universo de 497 bispos, ela não fala pela maioria do episcopado; mas, se a carta de bispos apoia Lula com arcebispos de três regiões do país, ela também não é um gesto isolado de meia dúzia de dioceses. É entre esses dois fatos que a carta de bispos apoia Lula disputará seu significado nos próximos dias.
CRÉDITOSIMAGEM E VÍDEO: Imagem ilustrativa dos bispos signatários da carta (ACI Digital); interior da Catedral de Brasília (Wikimedia Commons, CC BY 2.0).FONTE: ACI DigitalNOTA: Este conteúdo pode ter contado com o auxílio de inteligência artificial e passou por revisão humana antes da publicação. Para mais detalhes, consulte nossa política de uso de inteligência artificial.
Veja o Hugo Gospel primeiro no Google
Toque no botão abaixo e adicione o Hugo Gospel às suas fontes preferidas. Você passa a ver nossas matérias em destaque no Google Discover e nas principais notícias.
Adicionar às Fontes PreferidasEncontrou algum erro nesta matéria? Sua mensagem ajuda nossa redação a manter tudo correto.
Fique por dentro!
Para ficar por dentro de tudo sobre o universo gospel e do entretenimento, siga @hugogospell no Instagram.
Seguir HUGO GOSPEL no GoogleAs mais lidas
- 1
RHODA JATAU RECEBE PRÊMIO DE LIBERDADE APÓS 19 MESES PRESA SOB ACUSAÇÃO DE BLASFÊMIA NA NIGÉRIA - 2
MELANIA TRUMP ANUNCIA CESSAR-FOGO LOCALIZADO ENTRE RÚSSIA E UCRÂNIA PARA AJUDA HUMANITÁRIA EM OLESHKY - 3
IGREJA DA INGLATERRA ENFRENTA DECLÍNIO COM QUEDA DE ATÉ 40 POR CENTO NA FREQUÊNCIA E ALERTA DE DESASTRE FINANCEIRO - 4
SENADORA LOUISE LUCAS É INDICIADA POR TRÁFICO DE MACONHA E LAVAGEM DE DINHEIRO EM ESQUEMA DE 100 KG, DIZ JUSTIÇA DOS EUA - 5
NETANYAHU ANUNCIA OPERAÇÃO NA CISJORDÂNIA EM ESCALA INÉDITA APÓS ATAQUE QUE MATOU 2 SOLDADOS PERTO DE HEBRON





