RESUMO:
- A carta de bispos contra Flávio Bolsonaro, divulgada em 22 de outubro e repercutida neste sábado (24) pela imprensa católica dos Estados Unidos, reúne 47 bispos brasileiros.
- O grupo pede que os católicos não votem no senador do PL e lista sete motivos ligados à doutrina social da Igreja.
- A carta não cita os candidatos pelo nome, mas os signatários afirmam que a plataforma de Flávio ameaça a democracia, a soberania nacional e o bem comum.
- Entre os signatários estão dom Luiz Fernando Lisboa, de Cachoeiro de Itapemirim, e dom Adriano Ciocca Vasino, da Prelazia de São Félix do Araguaia.
Um grupo de 47 bispos brasileiros assinou uma carta pública pedindo que os católicos não votem em Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial, marcado para este domingo (25). A carta de bispos contra Flávio Bolsonaro foi lançada em 22 de outubro por 35 bispos e recebeu depois a adesão de outros 12 prelados, segundo reportagem do National Catholic Reporter, um dos principais veículos católicos dos Estados Unidos, publicada neste sábado (24).
A iniciativa é incomum no processo eleitoral brasileiro. Cartas coletivas de bispos costumam tratar de temas sociais amplos, sem recomendação direta de voto contra um candidato. Desta vez, os signatários afirmam que a gravidade do momento impede a neutralidade e que silenciar diante do que chamam de ameaças à democracia deixaria um legado vergonhoso, comparável ao silêncio de parte da Europa diante dos totalitarismos do século 20.
O QUE DIZ A CARTA DE BISPOS CONTRA FLÁVIO BOLSONARO?
A carta de bispos contra Flávio Bolsonaro não menciona Flávio nem Lula pelo nome. Mesmo assim, o texto descreve um dos candidatos como alguém que promete subordinar o Brasil aos Estados Unidos, participou de articulações por tarifas contra produtos brasileiros, defende interferência estrangeira nas eleições e se compromete a entregar recursos de terras raras para exploração norte-americana. Para os bispos, esse conjunto fere princípios centrais da doutrina social da Igreja.
Os signatários listam sete razões pelas quais a plataforma do senador contraria princípios católicos. Entre elas estão a posição histórica da família Bolsonaro a favor do afrouxamento das leis de armas, a defesa da ditadura militar (1964-1985) e da tortura de dissidentes, o descuido com a ecologia integral e o risco de uma nova tentativa de golpe, nos moldes do plano investigado após a eleição de 2022, pelo qual o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado.
A carta também critica a posição de Flávio sobre a jornada de trabalho. Os bispos registram que o senador se opôs ao fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso. Em outubro, o governo Lula sancionou a lei que reduz a jornada padrão de 44 para 40 horas semanais, com dois dias de descanso. Flávio criticou a medida, dizendo que as empresas seriam asfixiadas financeiramente, e depois votou a favor da redução, defendendo negociação direta entre patrões e empregados e o salário por hora.

Em outro trecho, os autores da carta de bispos contra Flávio Bolsonaro citam a encíclica do Papa Leão XIV ao afirmar que qualquer tentativa ou plano de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, portanto, inaceitável. A relação de Flávio com o governo de Donald Trump, que apoia abertamente o senador, é um dos eixos centrais do documento.
QUEM ASSINA E O QUE DIZEM OS BISPOS?
Um dos signatários, dom Luiz Fernando Lisboa, bispo de Cachoeiro de Itapemirim (ES), disse ao National Catholic Reporter que, sob um governo de Flávio Bolsonaro, o Brasil ficaria inteiramente à mercê dos Estados Unidos. Lisboa afirmou temer que um governo do senador permita a ampliação da presença militar norte-americana na América do Sul e dê às empresas dos Estados Unidos posição dominante na exploração dos recursos naturais da região.
Outro signatário, o bispo emérito dom Adriano Ciocca Vasino, nascido na Itália e à frente da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), ponderou que Lula nunca disse que se recusaria a trabalhar com os Estados Unidos na exploração de recursos como as terras raras. Segundo Vasino, o presidente exigiu que parte das tecnologias desenvolvidas com esses recursos permanecesse no Brasil. As declarações de Flávio, disse o bispo, dão a impressão de que ele entregaria os recursos sem restrições.
A carta de bispos contra Flávio Bolsonaro circula dias depois de outro episódio religioso da campanha: nos Estados Unidos, bispos católicos se reuniram com Donald Trump na Casa Branca para um momento de oração, episódio que o Hugo Gospel acompanhou na matéria sobre os bispos católicos que oraram por Trump. A fé, dos dois lados da disputa, virou linguagem central da reta final.
COMO A CARTA PODE PESAR NO VOTO CATÓLICO?
Cerca de 60% dos brasileiros se identificam como católicos romanos, segundo o Censo de 2022. É o maior bloco religioso do país, maior que o eleitorado evangélico, e foi cortejado pelas duas campanhas durante todo o segundo turno. Uma recomendação coletiva de bispos, mesmo sem citar nomes, tem potencial de alcançar paróquias e comunidades de base em todo o país justamente no fim de semana da votação.
Especialistas ouvidos pelo veículo norte-americano avaliam que o peso do documento também passa pela relação entre Brasil e Estados Unidos. Para o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, especialista na dinâmica religiosa brasileira, o significado de uma eventual vitória de Flávio para Trump dependerá ainda do resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em 3 de novembro. Se Trump sair enfraquecido, sua política para a América Latina tende a ser revista, avaliou o pesquisador.
A carta de bispos contra Flávio Bolsonaro não é um documento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) como instituição: trata-se de uma iniciativa de um grupo de bispos, assinada em nome próprio. Mesmo assim, pelo número de signatários e pelo momento da divulgação, a carta entra para a história desta eleição como a intervenção coletiva mais direta de prelados católicos brasileiros na disputa de 2026.
A repercussão internacional mostra o alcance do gesto. Veículos católicos de outros países passaram a tratar a carta de bispos contra Flávio Bolsonaro como um dos fatos religiosos centrais da eleição brasileira, ao lado da mobilização evangélica em torno do senador. Para os signatários, a carta de bispos contra Flávio Bolsonaro não pretende substituir a consciência de cada eleitor, mas registrar, antes da votação, a posição de parte do episcopado sobre o que está em jogo neste domingo.
CRÉDITOSIMAGEM E VÍDEO: Capa: cúpula da Basílica do Santuário Nacional de Aparecida, Wikimedia Commons (CC BY 3.0 br); imagem do meio: interior da Basílica de Aparecida, Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).FONTE: National Catholic Reporter (reportagem de 24/10/2026 sobre a carta divulgada em 22/10/2026).NOTA: Este conteúdo pode ter contado com o auxílio de inteligência artificial e passou por revisão humana antes da publicação. Para mais detalhes, consulte nossa política de uso de inteligência artificial.
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